No momento em que escrevo este artigo, estou lendo Meditações, de Marco Aurélio. Durante a leitura, me veio uma pergunta: se leio tanto, consumo tanto conteúdo e debato comigo mesmo sobre o que aprendo, por que não escrevo e registro minhas palavras?
Será que me comparo a um grande autor ao pensar assim? Ou estou me apequenando diante de uma pessoa do passado? Refletindo, comecei a questionar por que a possibilidade de escrever vinha acompanhada dessa comparação. Preciso saber até onde minhas palavras vão chegar para começar?
Assim como encontro em Marco Aurélio um diálogo consigo mesmo, abro este primeiro texto para me questionar. Criei este espaço para registrar reflexões sobre o que leio, assisto e vivo, incluindo a tecnologia, área em que construí minha carreira.
Mas vale dar um passo atrás e lembrar onde eu estava antes de retomar antigos hobbies e interesses.
Eu passava uma grande parte do meu tempo nas redes sociais, alternando entre Instagram, Facebook e X. Saía de uma, abria outra e, de repente, estava de volta à primeira. Nesse ciclo, percebia que lá se iam quatro, cinco, até seis horas do meu dia.
O celular estava presente no trabalho, no banheiro e até no banho. Meu sono era afetado, e minha atenção ficava dividida entre a tela e os outros afazeres. Conversava sobre isso com minha esposa, que também concordava que aquele uso estava me fazendo mal.
Apesar desse incômodo, o que me motivou a retornar à literatura foi a paternidade. Desde que minha filha, Luna, veio ao mundo — ela recentemente completou dois anos —, comecei a pensar em como criar uma criança nos dias de hoje e no que gostaria de compartilhar com ela.
Me espelhei na forma como minha mãe cuidava de mim. Vê-la lendo, comprando gibis e me dando meu primeiro livro, Harry Potter, que ainda tenho guardado, me incentivou a ler. Aprendi cedo e fui conhecendo histórias como Diário de um Banana e Como Treinar o Seu Dragão. Esses livros, infelizmente, se perderam com o tempo.
Durante muito tempo, pensei que havia abandonado a leitura depois da perda da minha mãe. Mas, ao revisitar minhas memórias, percebi que essa história não era tão simples. Na adolescência, acompanhava o mangá de Naruto: esperava pelos capítulos traduzidos e lia pela internet, porque não tinha dinheiro para comprar os volumes. Também pegava livros emprestados na biblioteca da escola.
Foi na passagem da adolescência para a vida adulta que os livros de literatura perderam espaço. Ainda assim, eu continuava lendo textos e artigos da faculdade, além dos materiais de cursos que fazia para entrar no mercado de trabalho. A leitura permanecia na minha vida, embora com outra finalidade.
Nos primeiros meses da Luna, assinei um clube de livros que acompanhava cada fase do desenvolvimento dela. No início, eram livros que podia morder, manusear e até levar para o banho. Depois vieram as histórias que hoje conto diariamente.
Foi aí que entrei de cabeça. Cada livro infantil que me contagiava despertava a vontade de trazer mais uma história para casa. Fomos construindo esse hábito de comprar e ler livros.
Saudosista que sou, também apresentei conteúdos que fizeram parte da minha vida, como Cocoricó e Palavra Cantada. Passei a escolher com mais cuidado o que oferecia a ela: histórias, músicas e programas educativos, de ritmo tranquilo. Ao mesmo tempo, meu incômodo com o próprio uso das telas me fazia pensar no exemplo que estava dando.
As redes sociais também participaram desse retorno à leitura. Elas ocupavam mais tempo do que eu gostaria, mas foi nelas que encontrei pessoas falando sobre livros e apresentando clássicos.
Eu conhecia principalmente obras infantojuvenis e me perguntava: o que poderia ler agora, aos 26 anos? Entre as sugestões que começaram a aparecer, encontrei Dostoiévski, Nietzsche, Sêneca, Kafka e outros autores.
Conforme fui lendo, meus interesses também foram mudando. Passei a procurar conversas sobre filosofia, literatura e comportamento. A preocupação que tinha com os conteúdos da Luna começou a se voltar para minhas próprias escolhas: o que eu estava consumindo e quanto espaço isso ocupava no meu dia?
Em Sobre a brevidade da vida, Sêneca discute o tempo que desperdiçamos, mesmo vivendo como se ele estivesse disponível em abundância. Essa leitura me fez voltar ao ciclo de abrir e fechar aplicativos e pensar no que eu queria fazer com aquelas horas.
Ainda uso as redes sociais e encontro coisas valiosas nelas. Mas quero dedicar mais tempo às histórias que leio com minha filha, aos livros que me fazem pensar e às perguntas que continuam comigo depois da leitura.
É nesse percurso que a vontade de escrever ganhou espaço. Quero registrar essas perguntas, desenvolver minhas ideias e abrir uma conversa sobre elas. Este blog começa como parte dessa tentativa.
Se este primeiro texto deixar um convite, é o de olhar para os próprios hábitos e lembranças: há algo que você gostava de fazer e que gostaria de trazer de volta à sua vida?