Lembro-me da primeira vez em que tive uma discussão política. Era 2012, eu estava na 7ª série do ensino fundamental e tinha 12 anos. Não entendia muito de direita e esquerda, capitalismo ou comunismo, mas me identificava com a campanha de Fernando Haddad, que viria a ser eleito prefeito de São Paulo.
A discussão aconteceu em sala de aula, com um colega cujo nome ainda lembro, mas prefiro preservar. Ele era um jovem criado dentro da igreja — acredito que evangélica. Menciono isso porque, nos dias de hoje, vemos com frequência a política ser pautada pela religião. O estado de São Paulo sempre abraçou os “tucanos”, do PSDB, e Haddad disputava o segundo turno com José Serra.
Meu colega saiu em defesa de Serra, criticando as propostas de Haddad, e eu, por algum motivo que ainda não sabia explicar, defendi todas elas. Não houve ofensas, apenas uma discussão entre opiniões distintas. Até nossa professora ouvia com atenção, embora eu já não consiga lembrar seu nome nem a disciplina daquela aula.
O curioso é que aquelas duas crianças discutiam o que acompanhavam nas notícias e, claro, as opiniões que escutavam dentro de suas respectivas casas.
Quando ingressei no ensino médio, fui estudar na ETEC Professor Basilides de Godoy. Era uma escola pública, mas formada majoritariamente por pessoas de uma certa elite: alunos que vinham de colégios particulares e cujos pais tinham muito mais formação do que qualquer pessoa da minha família havia tido a oportunidade de ter. Foi naquele ambiente que fiz amigos que levo para a vida e aprendi a me posicionar politicamente.
Eu estudava em período integral, no ensino médio integrado ao curso técnico em Informática, hoje chamado de Desenvolvimento de Sistemas. A escola tinha uma cantina paga e abria os portões para que os alunos pudessem almoçar nos restaurantes da região. Quem não tinha condições, como eu, levava marmita de casa e usava os micro-ondas e os marmiteiros da escola.
Minha maior angústia era quando alguém colocava uma marmita sobre a minha e ela acabava cheia de água, ou quando a comida azedava. Passei a ter ódio de marmita. Quando comecei a trabalhar, usava meu dinheiro para comer uma comida fresca. Até hoje carrego esse trauma — e conto isso rindo, mas o incômodo era real.
Em 2016, estudantes secundaristas ocuparam escolas públicas para reivindicar seus direitos. Os alunos da ETEC também participaram desse movimento. Lembro que, no dia em que ocuparam a escola, fomos pegos de surpresa. Na porta, o convite era direto: quem quisesse participar poderia entrar; quem fosse contra poderia ir embora. Não demorei a decidir. Eu e meus amigos entramos.
Foi minha primeira manifestação. Ninguém da minha família havia participado de uma. Como eu tinha um “gênio” forte, nenhum deles se opôs. Lá fui eu dormir na escola e participar da arrecadação de comida e mantimentos para quem estava na ocupação. Foi ali que meus posicionamentos começaram a ganhar forma de fato.
Vale lembrar que a maioria dos alunos daquela escola pertencia a uma elite e se opunha à ocupação. Quando olhava para os rostos de quem era contra, via justamente os que tinham mais privilégios e eram pouco afetados pelos problemas da escola. Tinham dinheiro para comer, pagavam cursinhos caríssimos para entrar na faculdade, eram levados e buscados pelos pais ou moravam perto o suficiente para voltar a pé para casa.
No olhar de cada um deles, eu via o ódio àquela situação. O discurso era que a ocupação era desnecessária e que seus participantes eram justamente os piores alunos. Piores sob qual perspectiva? Os mesmos que nos criticavam eram os que menos valorizavam os professores e a instituição, porque sabiam que seu futuro já estava confortavelmente garantido pelos pais.
Ao final da ocupação, depois de muita luta, conquistamos mais direitos, principalmente a alimentação. Quem havia participado se aproximou ainda mais. Formamos amizades inseparáveis e abrimos espaço para discussões sobre minorias e para coletivos negros e LGBTQIA+.
Depois, entrei na faculdade e comecei a vida adulta. Aos poucos, fui deixando de lado aquele adolescente de opiniões fortes. Continuei mantendo meu posicionamento político em todas as eleições, mas de maneira mais reservada: um post em uma rede social, sempre acompanhado do receio de que aquilo pudesse afetar minha carreira.
Em 2018, com a primeira onda do bolsonarismo, voltei às discussões políticas, principalmente na internet. Tentava convencer aqueles que estavam cegos pelo bolsonarismo de que cometiam um erro. Não tive sucesso. Bolsonaro foi eleito, e tivemos quatro anos sombrios de retrocesso e uma pandemia terrível.
Durante esse período, assisti a Privacidade Hackeada, documentário lançado pela Netflix em 2019. Ele retratava como as redes sociais, antes vistas como uma forma de nos conectar ao mundo e aos amigos, haviam se tornado um ambiente obscuro e uma arma de guerra política. No Brasil, havia também o envolvimento da Meta, por meio do WhatsApp, nesse cenário político.
Mas aonde quero chegar com tudo isso?
Em 2026, estamos novamente diante do extremismo, numa disputa entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula. Desta vez, vejo uma presença muito mais forte de políticos da extrema direita nas redes sociais. São Paulo elegeu uma deputada sem propostas, cujo discurso se baseava em ser “antifeminista” e perseguir minorias. Ao seu lado, o deputado mais votado recorria à mesma “arma”.
Sempre tivemos discussões políticas. Elas fazem parte da democracia. Existe a direita e seus apoiadores, assim como a esquerda e os seus. Mas estamos vendo um movimento extremista não apenas no Brasil, como em toda a América Latina.
Volto, então, ao documentário de 2019: se o caso Cambridge Analytica mostrou como dados pessoais podiam ser usados para influenciar eleições, quem nos garante que não estamos diante de alguma forma de influência semelhante em 2026?
Recentemente, li “Enviesado”, um dos textos do livro Na velocidade da tecnologia, de Jeovani Salomão. O autor discute justamente como estamos sujeitos a vieses nas redes sociais e menciona outro documentário da Netflix, O Dilema das Redes, que aborda os malefícios do uso excessivo dessas plataformas.
No texto, Salomão descreve como as redes vão nos cercando de um universo em que todos parecem pensar da mesma forma, mantendo-nos dentro de uma bolha.
Antes da apuração do primeiro turno, eu tinha muita fé de que o presidente Lula seria eleito já naquela etapa. Foi um banho de água fria vê-lo ir para o segundo turno com Flávio Bolsonaro à frente.
Estamos tão cercados por uma tecnologia que nos entrega aquilo que queremos ver, tão envolvidos pela nossa bolha, que deixamos de perceber se o que acompanhamos representa uma maioria ou uma minoria. O resultado é o choque com uma realidade diferente daquela que a internet nos mostrou.
Precisamos participar da vida, estar nas ruas e nas redes, discutir o que acontece no nosso bairro, na nossa cidade e no nosso estado. Não podemos limitar essa participação à bolha de uma rede social.
Em “Desconexão”, outro texto do mesmo livro, Jeovani Salomão relata uma experiência de horas sem acesso à internet. A reflexão passa por uma ideia que a Nissan apresentou em 2017: um compartimento para o celular revestido por uma gaiola de Faraday, capaz de bloquear os sinais que chegavam ao aparelho. Uma proposta que não foi adiante, enquanto hoje temos carros com mais tecnologia do que alguns celulares.
O que me interessa nessa imagem é a possibilidade de sermos nossa própria gaiola de Faraday: filtrar conteúdos e mensagens, interromper por um momento esse fluxo e observar o que as pessoas à nossa volta estão debatendo. O que pensam nossos vizinhos? Quais são os problemas do nosso bairro, da nossa escola ou da nossa faculdade?
Sejamos as gaiolas de Faraday uns dos outros.